A FOME NO PAÍS DO DESPERDÍCIO

 

OUT/2001

 

            Tudo neste mundo gira, inclusive o próprio mundo. As nossas preocupações estão sempre girando em torno de alguma questão de maior ou menor importância, mas elas sempre existem, as mesmas ou outras diferentes, elas vêm e vão, intensificam-se, atenuam-se, às vezes até desaparecem, mas logo surgem outras. O mundo é assim, cheio de problemáticas. O grande desafio é saber como lidar com elas, nossas atitudes perante as questões pessoais e coletivas. Mas, na maioria das vezes, estamos tão mergulhados em nossos próprios mundos, nossos próprios desejos, aspirações e buscas, que nos esquecemos que vivemos em outro mundo povoado por milhares de outras pessoas como nós. A gente tem a mania de se colocar no centro do mundo e não olhar ao redor, quando muito, apenas o que está imediatamente ao lado.

 

            Mas tudo se movimenta em torno de nós, o mundo gira, os planetas giram, os dias mudam, as semanas, os meses, as estações, o tempo, tudo está em constante movimento. Não dá para ficar ensimesmado, não dá para ficar parado, ou melhor, não dá mais para ficar parado. Somos seres sociais, devemos agir e interagir o tempo todo, mas de forma positiva e pro-ativa.

 

O nosso país está conhecido como o país do desperdício, onde 1,4% do PIB brasileiro representam perda de alimentos, o que equivale, aproximadamente, à importância de 1 Bilhão de reais por mês, que deixam de se transformar em refeição para pessoas necessitadas.

 

Mas não é só o alimento que desperdiçamos não... A questão é cultural. É cultural, também, achar tudo isso muito natural. Só que a fome não é nada natural, como não deve ser natural nos acostumarmos com o título de “país do desperdício”. Estamos muito acostumados a nos acostumar, mas com a fome não dá para se acostumar não. A fome mata antes que nos acostumemos com ela, isto não é nenhuma fábula é a nossa realidade e a responsabilidade é todinha nossa, principalmente porque vivemos no país do desperdício, e o mais engraçado, se é que podemos achar alguma graça, é que em pleno 3º milênio.

 

Não é necessária nenhuma transmutação alquímica para que possamos sair da casca para agirmos mais de acordo com o “tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo, tudo muda o tempo todo no mundo”, deixando para trás a velha síndrome de Gabriela “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”.

 

Doar não vai doer ! Dói muito mais no bolso e na consciência pagar para eliminar alimento no país do desperdício em que milhares de pessoas morrem, todos os dias, com a dor da fome.

 

Tudo gira, tudo se movimenta, tudo muda e, cada vez mais, com maior velocidade. Temos que mudar também nossas atitudes perante algumas questões antigas que nos parecem muito naturais, afinal, já temos mais de 2 mil anos de estrada, já deu para aprender um pouquinho, já dá para começar a imaginar como seria “a fome no país das maravilhas” se pensarmos que maravilha é poder agir, que maravilha é perceber que temos o poder de transformar, que maravilha é poder doar !!!! Então é partir para ação, ou melhor, para a doação !